Vanguarda Francesa no Cinema, 1920.


paris-590x445É conhecida como Vanguarda Francesa no Cinema o movimento ocorrido durante os anos 1920 a 1930, em Paris. Motivada especialmente por um questionamento de valores surgidos logo após a I guerra Mundial, pelo avanço de novas descobertas na fotografia e nas técnicas cinematográficas e pela busca de uma identidade para a nova arte que surgia.

O mundo fervia com novas ideias e invenções. Os estudos de Freud sobre o inconsciente já chegavam ao público. Einstein formulava a teoria geral da relatividade em 1915. O Metro de Paris já tinha mais de 100 estações. As lâmpadas elétricas, sucesso da Feira de Paris de 1881, dominavam a cidade e o nome da cidade luz tornou-se comum. A torre Eiffel compunha a paisagem desde 1889 e se tornava um símbolo. A revolução Russa de 1917 apontava novos caminhos.

Ao mesmo tempo invenções como a fotografia e o cinema ganhavam outra dimensão com artistas questionando sua utilização e conceitos. Serviria o cinema apenas como fonte de diversão, passando atualidades? O famoso trem dos Lumieres não pararia de passar, assustando as pessoas?

Em vários lugares do mundo a classe artística tentava se apropriar das novas técnicas para criar e explorar as potencialidades da mesma.

Man Ray conceituava

“Em lugar de pintar pessoas, comecei a fotografá-las, e desisti de pintar retratos ou melhor, se pintava um retrato, não me interessava em ficar parecido. Finalmente conclui que não havia comparação entre as duas coisas, fotografia e pintura. Pinto o que não pode ser fotografado, algo surgido da imaginação, ou um sonho, ou um impulso do subconsciente. Fotografo as coisas que não quero pintar, coisas que já existem.”

E no cinema? Os russos com Dziga Vertov e Serguei Eisenstein mostravam algumas possibilidades para dialética e para o documentário. Os americanos apresentavam o cinema narrativo clássico e os estúdios de Holllywood atraiam criadores e artistas de todo o mundo. Como responderia a França a estas propostas?

O surrealismo e o dadaísmo foram os movimentos que congregaram os artistas que encabeçaram a resposta francesa.

Louis Delluc, considerado líder do grupo surrealista, almejava fazer um cinema intelectualizado e autônomo, inspirando-se na pintura impressionista. Desse ideal gerado por Delluc nascem obras como Fièvre (Febre, 1921), do próprio Delluc, La Roue (A roda, 1922), de Abel Gance, e Couer Fidèle (Coração Fiel, 1923), de Jean Epstein.

Um dos nomes mais brilhantes desse grupo foi Germaine Dulac, destacando-se com “La Souriante Mme. Beudet” (1926) e “La Coquille et le Clergyman” (1917).

Rene Clair apresentava “Entr’act” (1924), roteiro de Francis Picabia, trilha sonora de Erik Satie e inspirado em Mark Sennett. Foi criado para ser reproduzido no intervalo entre dois atos do ballet Telàche, do próprio Picabia, cujo título significa “não há encenação hoje”. O filme apresenta ideias muito interessantes em relação ao sonho de um mágico, fazer desaparecer tudo e todos com um toque da varinha mágica. E ao final desaparecer ele mesmo, o mágico. Há ainda a cena de um funeral e até uma ressurreição, além de homens e mulheres andando como se fossem cavalos que permanece na memória.

Vamos no entanto analisar dois outros filmes destes mesmos autores,Germaine DuLac e René Clair.

René Clair apresenta praticamente ao mesmo tempo em que Entre’act o filme “Paris qui dort”. Neste filme de ficção científica, um raio paralisa os habitantes da cidade de Paris. Um pequeno grupo porem não é afetado. O vigia da Torre Eiffel e uns visitantes que chegaram de avião.

Uma grande ideia que possibilita a filmagem ao ar livre e tomadas da Torre, mostrando panorâmicas da cidade, os jardins e rios de Paris na década de 20. O que fazer então numa cidade onde todos os habitantes estão parados num determinado momento do tempo e do espaço?

Passear pela cidade, andar no carro mais moderno e possante. Entrar num ambiente luxuoso onde há comida e bebida a vontade e se servir. De tudo, da champanhe ao caviar. Pegar o melhor casaco e dar de presente à namorada. E que tal um colar de joias? Nada impede, nada é proibido, a cidade está a seus pés e a sua disposição.

Assim continuam a pensar e achar novos divertimentos. Que tal assaltar um banco? Logo a seguir vem a reflexão, mas fazer o que com o dinheiro já que não serve para nada?. A cena onde um deles pega um nota de valor alto e faz um aviãozinho de papel, como se fosse um brinquedo é antológica.

A câmera passeia pela cidade e flagra outros momentos que ficaram paralisados. O policial que corre atrás do bandido. A mulher que recebe o amante em casa para desespero do marido que é um dos que estão a salvo da paralisia. Dezenas de cenas do cotidiano que passariam despercebidas, não fosse a paralisia geral, são realçadas

A vida e os valores tais quais os percebemos é questionada e fica a pergunta, e se fosse diferente? Sem dúvida uma brilhante reflexão levando as técnicas de montagem e filmagem ao ar livre a outro patamar.

Uma cena parecida foi utilizada Matrix  que é uma produção cinematográfica estado-unidense e australiana de 1999, dos gêneros ação e ficção científica, dirigido pelos irmãos Wachowski e protagonizado por Keanu Reeves e Laurence Fishburne.

Germaine Dulac faz L’invitation au Voyage, (existe um poema de Charles Baudelaire, com este mesmo título) na qual coloca em cheque algumas das premissas do domínio masculino e o papel das esposas num casamento.

Germaine tinha formação em musica e opera, era também jornalista e lutava pelo voto feminino. Era favorável a clubes de cinema onde se discutisse e pensasse essa forma de expressão, longe das influencias de outras artes como a pintura e a literatura.

No filme citado a rotina do casal é abordada. Diariamente o homem sai com a justificativa de ter uma reunião de negócios à noite. A mulher, a atriz Emma Gynt, restava o crochê no aconchego do lar. Isso não a impedia de sonhar com locais glamorosos onde homens e mulheres se divertiam, bebiam conversavam e se dedicavam a cortejar o outro.

Inicialmente tímida, ela pega um taxi e vai a um desses lugares de sonhos, onde logo desperta a atenção de “profissionais da sedução” que mandam flores e oferecem uma taça de champanhe.

Embora haja um palco com atrações a câmera se dirige aos espectadores, propondo uma nova forma de mostrar o que é importante. Ao invés de uma câmera que filma um palco, como se a arte cinematográfica fosse escrava do teatro, a câmera busca outras histórias para contar. A de uma mulher curiosa, interessada na vida, no mundo. O ritmo é lento, os avanços são milimétricos, uma mão, um olhar, um brinde.

A conquista não se dá num primeiro impulso, mas é sim fruto de um deleite, que começa no olhar, mas passa por detalhes de uma perna, uma mão, um colo, um seio.

Para finalizar não poderíamos esquecer-nos de LUIS BUÑUEL (1900-1983): Nascido na Espanha, de origem católica, estudou com jesuítas e frequentou a Universidade de Madri. Em 1920, fundou o primeiro cineclube na Espanha, e em 1925 mudou-se para Paris, onde se envolveu no movimento vanguardista.

O Cão Andaluz filme com o qual chamou atenção mostra a cena do olho cortado. Diversas são as possíveis interpretações a esta cena. O corte no cinema, feito por um olho humano ou mostrar que sempre cortamos uma cena quando a vemos no mundo real. BUÑUEL tem uma obra brilhante e filmou um dos clássicos do cinema “A bela da tarde”.    Levou para o cinema a ideia de filmar sonhos.   

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